16/05/2018

História do leitor: Fiz um aborto na Itália


Meus artigos são no geral bem recebidos e comentados, recebo inclusive e-mails dos leitores. Depois do artigo Gravidez e Aborto na Itália, recebi diversos e-mails a respeito, muitos temas foram posteriormente abordados, e hoje, publico o relato de uma brasileira que mora em Roma, engravidou e decidiu não ter o bebê.  
Ela se prontificou a relatar sua experiência e segue o relato dela, claro, preservando sua identidade. 
Sabendo ser um tema polêmico, decidi publicar por acreditar que é um direito da mulher e acho ótimo que a Itália tutela esse direito. 


Fiz um aborto de forma legal na Itália



"Deu positivo. Pânico.
Já tinha em mente, sabendo do atraso, de não ter um filho naquele momento, caso fosse mesmo positivo.  "Não é o momento, não tenho condições, não estou pronta, não quero." Foi o que passou na minha cabeça.
Por "sorte", estou na Itália onde o aborto é legalizado. Sendo assim, fui procurar uma estrutura pública hospitalar muito conhecida em Roma por aplicar a Lei 194 (da interrupção voluntária da gravidez). O Hospital San Camillo.
Obtive as informações necessárias na internet mesmo, no site do hospital:
- comparecer de segunda a sexta às 8 da manhã, com documento (e fotocópia, se estrangeira), tessera sanitária e um exame de sangue ou urina Beta-HCG, constatando a gravidez.
Fui cedo, era o recomendado, por conta da fila. Falavam que atendiam só 10 ao dia, mas não é verdade, todas presentes foram atendidas.
Analisam a documentação, o exame e dão uma senha.
Na espera, observava o corredor: um grupo esperando a primeira consulta, outro já esperando o procedimento, talvez. Menor de idade com os pais, mulheres com os namorados, outras sozinhas, uma com um bebê ainda pequeno. Todas ali para o mesmo objetivo: pôr fim numa gravidez indesejada.
No início me sentia envergonhada, mas estando ali minha postura foi mudando. Era relativamente comum, era legalizado, era feito com dignidade.
Uma mãe lia um livro, aguardando a filha ser liberada. Uma garota saía emocionada e deu um beijo querido e apaixonado no namorado, outra saiu sozinha e não tinha ninguém esperando-a, foi embora com pressa...
Alguns de vocês podem pensar: por que não se preveniu? Tantos meios de impedir que isso acontecesse!?
Mas aconteceu e agora? Sou obrigada a ter, a ser mãe, a um destino sem escolha? Não, não aqui na Itália.
Me senti melhor.
Nesta primeira consulta, me fizeram um ultra-som, definiram o tempo de gravidez, explicaram os métodos: até 7 semanas poderia tomar o comprimido abortivo, depois disso era preciso fazer a "cirurgia" com a curetagem. Marcaram o retorno.
No retorno, novamente ultra-som, eu estava de 6+7, ufa! pensei, posso ainda tomar o comprimido, que seria menos agressivo. Me deram outra senha para fazer uma coleta de sangue, em seguida passar por uma psicóloga.
Esta perguntou se eu tinha certeza do que queria, se tinha algo que eu queria contar, se precisava de alguma coisa, explicou também em detalhes como seria o procedimento.
Sim, eu tinha certeza.
Então me deu outra senha.  Falamos também sobre métodos contraceptivos e demonstrei meu interesse em colocar um DIU, falaram que eu poderia colocar sim e, que explicariam depois o que eu deveria fazer.
Em seguida, passei na médica que me preencheu uma ficha e me encaminhou para tomar o primeiro comprimido, marcou também o retorno, dois dias depois, no qual eu tomaria a segunda dose.
Tomei o comprimido em oração, com a certeza que estava fazendo a coisa certa, o melhor pra mim naquele momento.
Falaram que eu poderia ter já um sangramento e dor com o primeiro comprimido mas que podia ter uma vida normal.
Não senti nem tive nada.
Dois dias depois voltei no horário marcado. Me deram a segunda dose e me encaminharam para um quarto do hospital, com banheiro privado. Tinha que aguardar fazer efeito, caminhar se preciso, usar o banheiro pra ajudar a "expulsão" do embrião. Duas horas depois, me fizeram um ultrasson. Tinha perdido, ou seja, o remédio foi absorvido e agiu com sucesso. Não estava mais grávida. Médico e enfermeiras sorriam, brincava, tudo na maior normalidade. Me deram meu café da manhã (fatias de pão, stracchino e uma fruta) e me disseram que assim que acabasse poderia ir pra casa, voltaria daqui 15 dias para um controle final (todo o procedimento foi gratuito).
Agradeci e fui embora.
Ninguém me esperava lá fora... nem minha mãe, nem meu namorado... mas não me importava mais... eu tinha um futuro que eu almejava, tinha que virar a página e seguir em frente, era preciso".


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2 comentários:

  1. Obrigada pelo relato! Se em todos os países fosse simples assim, o mundo seria um lugar melhor. Só a mulher pode tomar essa decisão e saber se tem condições ou não de criar um filho. Parabéns pelo relato e pela coragem! Fica bem!

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  2. Sem negar o drama da mulher, não consigo ver com naturalidade a eliminação sumária da vida intrauterina. Acho que todo ser tem direito à vida. Respeito muito a mulher. As pessoas que mais amo são mulheres: esposa, filha, mãe..., mas é da natureza dela a gestação. Não sejamos cegos de negar o óbvio. Isso não legitima qualquer pensamento de submissão dela em relação ao homem. Isso é tolice e discurso vazio. Pelo contrário, o fato dela carregar no próprio corpo uma vida por 9 meses explica o porquê do amor inigualável, indescritível e incomparável que existe entre mãe e filho.

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